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Rock Cristão Toma o Palco no SP Rocknation


Nesta edição, o SP Rocknation trouxe um line-up inteiramente dedicado ao rock cristão. E o mais interessante não foi apenas a temática em comum, mas o contraste entre as propostas sonoras — do peso extremo ao rock de abordagem mais melódica, evidenciando a diversidade de uma cena que ainda tem muito a ser explorada fora do seu próprio circuito.


A edição do SP Rocknation aconteceu no auditório do Centro Cultural Olido, hoje consolidado como um dos equipamentos culturais mais importantes do centro de São Paulo. Além do público presente, o evento também contou com transmissão ao vivo pelo canal da Associação Consciência Cultural, ampliando o alcance da programação.



MOTOR ROCKBR


Abrindo o evento, a Motor RockBR, banda tradicional de abertura das edições do SP Rocknation,  manteve sua proposta de revisitar clássicos do rock, conduzido por Alexandre Fabbri (guitarra), Guilherme Figueiredo (bateria), João Bustamante (baixo) e o convidado Walter Mourão nos vocais.  


O destaque ficou na incrível performance vocal de Walter Mourão, que segurou com consistência um repertório exigente e diverso. Em músicas como “My Sacrifice” do Creed  e “Aerials” do System of a Down, sua condução apareceu com controle e sustentação nas linhas vocais, enquanto nos sons mais pesados como como "My Own Summer" do Deftones e "Cochise" do Audioslave ganharam peso e agressividade.


 O ponto alto veio na execução de “Bulls On Parade”, do Rage Against the Machine, em uma versão matadora que literalmente sacudiu as poltronas do auditório, levantando o público, mesmo no evento de formato rock cristão que viria a seguir. 




ZIVE


A Zive foi formada em 2002 e carrega mais de duas décadas de estrada dentro de uma proposta voltada ao metal hardcore, combinando peso, intensidade e mensagem. A formação conta com Fábio no contrabaixo, Wine nos vocais, Dudu na bateria, Matheus e Marcos nas guitarras, com destaque para a dinâmica familiar: Fábio Willock, pai, nos backing vocals desde o início da banda, e Wine, que assumiu os vocais ainda criança e segue à frente do grupo.


No palco, a Zive mostrou uma entrega intensa do começo ao fim, muito sustentada pela presença de Wine. Cantando na banda desde os 10 anos de idade, ela domina o palco com naturalidade e chama atenção pela técnica vocal do grindcore e guturais pesados, daqueles de dar inveja em muito marmanjo da cena. Durante toda a apresentação, Wine manteve contato constante com o público, incentivando a movimentação e puxando rodas, mesmo dentro do formato de auditório da Galeria Olido. Em determinado momento, convocou todo mundo a sair das cadeiras e formar mosh na frente da primeira fileira, movimento que acabou influenciando também o clima do show seguinte.


Essa interação atingiu o ápice em “Inferno”, quando desceu do palco para participar do mosh junto com a galera. Já em “Sacrifício”, criou um dos momentos mais marcantes da apresentação: enquanto o pai puxava o “sacrifício” nos backing vocals, Wine, no meio do público, passava o microfone para a plateia responder em coro “nunca mais”. O peso também apareceu com força em “Faça Valer”, trazendo uma pegada mais próxima do death metal, enquanto “Sejamos Fortes” funcionou como um dos pontos de maior conexão coletiva, com o refrão sendo cantado junto pelo público. O encerramento com “Pensamento” deixou o mosh armado na frente do palco, preparando o terreno para a entrada da Antidemon.




ANTIDEMON


Formado em São Paulo em 1994, o Antidemon é um dos nomes mais longevos do metal cristão brasileiro, com uma trajetória consolidada dentro do death/grind ao longo de décadas de atividade. Desde 2016 atuando como duo, com Carlos Batista na guitarra e vocal e Juliana Batista na bateria, a banda mantém uma identidade marcada por influências do grindcore e por um death metal mais sombrio e cadenciado, sustentado por riffs elaborados. Ao longo dos anos, construiu respeito dentro cena rock cristã, formando uma base fiel de admiradores e se consolidando como um dos nomes mais relevantes do metal nacional.


No palco, a apresentação foi direta ao ponto. Mesmo em formato reduzido, o duo entregou um show sem rodeios, baseado exclusivamente no peso. Do início ao fim, foi sequência de pancada, sem pausas mais longas ou grandes variações, enquanto a força da apresentação se concentrava na execução e na agressividade do som. 


O repertório trouxe grandes momentos que fizeram o público vibrar  e formar rodas de mosh, mesmo no espaço reduzido de auditório, como em “Convergence”, com um breakdown que caiu direto na roda de mosh já formada desde o show da Zive, e passagens mais rápidas e caóticas que remetem ao material do primeiro disco. 


No encerramento, “Massacre” reafirmou seu status dentro da cena, simples, direta e eficaz, funcionando como um dos pontos mais fortes da apresentação.  Antidemon entregou show em que consegue equilibrar técnica, agressividade e mensagem, sem perder a identidade que construiu ao longo dos anos.




SOTS


Chega a vez da SOTS (Story Of The Son) que musicalmente, trabalha com uma base de rock alternativo acessível, com melodias bem definidas e letras voltadas a temas como fé e propósito.


A SOTS se apresentou com  Jen (vocal), Caw e Ruan (guitarras), Augusto (baixo) e Doug (bateria). Com repertório autoral estruturado, a banda mostrou consistência ao longo do set, passando por faixas como “Claustro”, “Nossas Histórias”, “Até que tenhamos rostos” e “Retomada”, construindo uma apresentação coesa e com identidade própria dentro da cena do rock cristão.


Musicalmente, o show foi marcado por um equilíbrio claro entre melodia e peso. A base do som parte de uma construção mais trabalhada nos arranjos, com duas guitarras criando camadas que, em momentos específicos, empurram a sonoridade para algo mais próximo do metacore. Nos refrões, esse peso ganha força, trazendo uma pegada que remete ao new metal, enquanto os versos mantêm uma condução mais melódica. A voz de Jen acompanha bem essa dinâmica: parte de uma linha mais limpa e acessível, mas cresce junto com a banda nos momentos de maior intensidade, sem segurar a entrega.


 Ao vivo, isso se traduz em uma performance envolvida, com o vocal realmente se colocando na apresentação. Outro ponto que se destacou foi o uso de backing vocals, especialmente vindos do baixo, ajudando a preencher os refrões e dar mais corpo às músicas. O resultado foi um show bem amarrado, com peso entrando na hora certa e o público cantando junto.




MAURO HENRIQUE


Mauro Henrique trouxe ao evento o peso da história. Conhecido por sua trajetória como vocalista do Oficina G3, é um dos nomes mais reconhecidos do rock cristão nacional, tendo participado de uma fase marcante da banda e ajudado a consolidar sua identidade junto a um público amplo. Em carreira solo, mantém essa base, explorando diferentes vertentes do rock.


Sua performance se apoia na consistência vocal e na capacidade de alternar entre momentos intensos e melódicos. O repertório equilibrou influências do rock moderno com elementos mais tradicionais do gospel, sempre com letras voltadas à espiritualidade. 


No Auditório da Galeria Olido, era perceptível a expectativa do público para o último show, com a plateia se mantendo no espaço aguardando o momento final do festival. Quando subiu ao palco, a resposta veio imediatamente , confirmando o papel de Mauro Henrique como um dos nomes mais aguardados desta edição do SP Rocknation.


Mais do que isso, sua atuação o coloca como um dos grandes vocalistas do rock brasileiro em geral, pela consistência técnica, alcance vocal e capacidade de interpretação. No SP Rocknation, se apresentou em formato power trio, acompanhado por Isaías Ramos Júnior (bateria) e Matheus Galeano Soares de Campos (baixo), o que deu ainda mais destaque à condução vocal e à base rítmica da apresentação.


A primeira parte do show seguiu com foco maior na construção instrumental, com a cozinha assumindo protagonismo dentro do formato enxuto da banda. Nesse bloco seguinte, Mauro intercalou mensagens de fé entre as músicas, com destaque para a execução de “Aonde Está Deus”, onde mostrou todo o seu talento, com muita técnica e extensão vocal e trazendo muito emoção para o público.


Ao longo da apresentação, ficou evidente a conexão com o público, especialmente nos momentos em que as músicas eram acompanhadas em coro por uma plateia que já conhecia o repertório. Entre uma música e outra, Mauro também abriu espaço para falas sobre espiritualidade e experiência pessoal, reforçando a proposta do evento. No palco, Mauro Henrique fez valer a expectativa que acompanhava o encerramento da noite. Entre técnica vocal, presença e entrega, conduziu um show que respondeu plenamente à ansiedade do público e fechou o SP Rocknation em alto nível.






O SP Rocknation não funcionou apenas como uma edição temática, mas como vitrine para uma cena que demonstra público fiel, qualidade musical e forte capacidade de conexão com quem acompanha esse universo. Ao dedicar uma noite inteira ao rock cristão dentro da Galeria Olido, o evento abriu espaço para um nicho que muitas vezes circula fora dos grandes holofotes, mas que mostrou força, organização e alto nível de entrega artística ao longo de toda a programação. 



Resenha por: William Nascimento

Associação Consciência Cultural

 
 
 

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